IA irá mudar como os humanos pensam? Especialistas respondem

Enquanto as mentes mais brilhantes da inteligência artificial estão correndo para fazer a tecnologia pensar mais como os humanos, pesquisadores da Universidade Elon fizeram a pergunta oposta: como a IA mudará a forma como os humanos pensam?

A resposta vem acompanhada de um alerta preocupante: muitos especialistas em tecnologia temem que a IA torne as pessoas piores em habilidades essenciais para a humanidade, como empatia e pensamento profundo.

“Temo — por enquanto — que, embora haja uma minoria crescente se beneficiando cada vez mais significativamente dessas ferramentas, a maioria das pessoas continuará a abrir mão de sua autonomia, criatividade, capacidade de decisão e outras habilidades vitais para essas IAs ainda primitivas”, escreveu o futurista John Smart em um ensaio enviado para o relatório de quase 300 páginas da universidade, intitulado “O Futuro de Ser Humano“, que foi fornecido com exclusividade à CNN antes de sua publicação nesta quarta-feira (2).

As preocupações surgem em meio a uma corrida contínua para acelerar o desenvolvimento e a adoção da IA, atraindo bilhões de dólares em investimentos, além de ceticismo e apoio de governos ao redor do mundo.

Gigantes da tecnologia estão apostando que a IA mudará a forma como fazemos tudo — trabalhar, nos comunicar, buscar informações —, e empresas como Google, Microsoft e Meta estão correndo para desenvolver “agentes de IA” que possam realizar tarefas em nome das pessoas. Mas especialistas alertam no relatório que tais avanços podem fazer com que as pessoas se tornem excessivamente dependentes da IA no futuro.

A proliferação da IA já levantou grandes questões sobre como os humanos se adaptarão a essa nova onda tecnológica, incluindo se isso pode levar à perda de empregos ou à geração de desinformação perigosa. O relatório da Universidade Elon questiona ainda mais as promessas das gigantes da tecnologia de que o valor da IA estará na automação de tarefas repetitivas e monótonas, permitindo que os humanos se dediquem a atividades mais complexas e criativas.

O relatório de quarta-feira também vem na esteira de uma pesquisa publicada este ano pela Microsoft e pela Universidade Carnegie Mellon, que sugeriu que o uso de ferramentas de IA generativa pode impactar negativamente as habilidades de pensamento crítico.

Mudança fundamental e revolucionária

Os pesquisadores da Universidade Elon entrevistaram 301 líderes de tecnologia, analistas e acadêmicos, incluindo Vint Cerf, um dos “pais da internet” e atual vice-presidente do Google; Jonathan Grudin, professor da Escola de Informação da Universidade de Washington e ex-pesquisador e gerente de projetos da Microsoft; Charlie Firestone, ex-vice-presidente executivo do Instituto Aspen; e a futurista e CEO da Futuremade, Tracey Follows. Quase 200 dos entrevistados escreveram ensaios completos para o relatório.

Mais de 60% dos participantes disseram esperar que a IA mude as capacidades humanas de maneira “profunda e significativa” ou “fundamental e revolucionária” na próxima década. Metade acredita que a IA criará mudanças para o bem e para o mal em igual medida, enquanto 23% disseram que as mudanças serão predominantemente negativas. Apenas 16% afirmaram que as mudanças serão principalmente positivas (o restante declarou não saber ou prever pouca mudança no geral).

Os entrevistados também previram que, até 2035, a IA causará mudanças “majoritariamente negativas” em 12 traços humanos, incluindo inteligência social e emocional, capacidade e disposição para pensar profundamente, empatia e aplicação de julgamento moral, além do bem-estar mental.

A capacidade humana nessas áreas pode piorar se as pessoas recorrerem cada vez mais à IA para tarefas como pesquisa e construção de relacionamentos por conveniência, segundo o relatório. E um declínio nessas e em outras habilidades essenciais pode ter implicações preocupantes para a sociedade, como “polarização crescente, ampliação das desigualdades e diminuição da autonomia humana”, escreveram os pesquisadores.

Os colaboradores do relatório preveem que apenas três áreas experimentarão mudanças predominantemente positivas: curiosidade e capacidade de aprendizado, tomada de decisões e resolução de problemas, além de pensamento inovador e criatividade. Mesmo com as ferramentas disponíveis hoje, programas que geram arte e resolvem problemas de codificação estão entre os mais populares. Muitos especialistas acreditam que, embora a IA possa substituir alguns empregos humanos, ela também pode criar novas categorias de trabalho que ainda não existem.

A evolução da IA

Muitas das preocupações detalhadas no relatório estão relacionadas à forma como os líderes tecnológicos preveem que as pessoas incorporarão a IA em suas vidas diárias até 2035.

Vint Cerf acredita que os humanos logo dependerão de agentes de IA, que são assistentes digitais capazes de realizar tarefas de forma independente, desde tomar notas em reuniões até fazer reservas em restaurantes, negociar contratos empresariais complexos ou escrever códigos.

Empresas de tecnologia já estão lançando versões iniciais desses agentes — a Amazon afirma que sua assistente de voz Alexa reformulada pode fazer pedidos de supermercado, e a Meta está permitindo que empresas criem agentes de IA para atendimento ao cliente em suas plataformas sociais.

Essas ferramentas podem economizar tempo e energia em tarefas cotidianas e auxiliar áreas como a pesquisa médica. No entanto, Cerf também se preocupa com a crescente dependência tecnológica de sistemas que podem falhar ou cometer erros.

“Também é possível prever certa fragilidade nisso tudo. Por exemplo, nada disso funciona sem eletricidade, certo?” disse Cerf em entrevista à CNN. “Essas dependências são maravilhosas quando funcionam, mas quando não funcionam, podem ser potencialmente perigosas.”

Cerf enfatizou a importância de ferramentas que diferenciem humanos de bots de IA na internet e de transparência quanto à eficácia de sistemas altamente autônomos. Ele instou as empresas que desenvolvem modelos de IA a manterem “trilhas de auditoria” para permitir investigações sobre quando e por que suas ferramentas cometem erros.

Tracey Follows, da Futuremade, disse à CNN que espera que a interação dos humanos com a IA vá além das telas onde atualmente conversamos com chatbots. Em vez disso, a tecnologia será integrada a diversos dispositivos, como vestíveis, e a edifícios e casas, permitindo que as pessoas façam perguntas em voz alta.

No entanto, com essa facilidade de acesso, os humanos podem começar a delegar empatia a agentes de IA.

“A IA pode assumir atos de bondade, apoio emocional, cuidados e arrecadação de fundos para caridade”, escreveu Follows em seu ensaio. Ela acrescentou que “os humanos podem formar vínculos emocionais com personalidades e influenciadores de IA”, levantando preocupações sobre se os relacionamentos autênticos e recíprocos serão deixados de lado em favor de conexões digitais mais previsíveis e controláveis.

Os humanos já começaram a formar relacionamentos com chatbots de IA, com efeitos variados. Algumas pessoas, por exemplo, criaram réplicas de IA de entes queridos falecidos para buscar encerramento emocional, enquanto pais de jovens tomaram medidas legais após alegarem que seus filhos foram prejudicados por interações com chatbots de IA.

Ainda assim, especialistas dizem que há tempo para mitigar alguns dos piores cenários potenciais da IA por meio de regulamentação, treinamento em alfabetização digital e simplesmente priorizando relações humanas.

Richard Reisman, pesquisador sênior da Foundation for American Innovation, afirmou no relatório que a próxima década marcará um ponto de inflexão para determinar se a IA “aumenta ou diminui a humanidade”.

“Estamos sendo conduzidos na direção errada pelo poder dominante do ‘complexo tecno-industrial’, mas ainda temos a chance de corrigir isso”, escreveu Reisman.

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Este conteúdo foi originalmente publicado em IA irá mudar como os humanos pensam? Especialistas respondem no site CNN Brasil.

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